Merendeira perde o emprego após reclamar das condições de trabalho em Mesquita

Péssimas condições de trabalho e abuso de poder da gerência da empresa foram questionadas por Vanuza. Reivindicações a fizeram ser demitida. Por medo de represália ela não quis mostrar o rosto.

“Para trabalhar como funcionário público em Mesquita tem que fazer o errado virar certo, caso contrário eles cortam você, te mandam embora”. O grave relato retrata a situação que Vanuza Fátima Pífaro Câmara do Carmo, de 49 anos, viveu no último mês. Ela trabalhava como merendeira na Escola Municipal Cruzeiro do Sul, mas uma reclamação sobre os alimentos oferecidos pela unidade escolar e as péssimas condições de trabalho, a fez perder o emprego. Ela conta com exclusividade ao jornal O Povo um pouco mais do drama que viveu enquanto era merendeira da escola.

Escola onde Vanuza trabalhava em Mesquita / Foto: Google Street View

Vanuza era funcionária da empresa Alimentação Global Service LTDA, que desde maio do ano passado é a responsável por fornecer merenda às escolas de Mesquita.  Os serviços começaram através de um contrato emergencial, no entanto, após vencer licitação, a distribuição de merendas passou a ser feita em definitivo por eles.

De acordo com a ex-merendeira, no começo tudo eram flores. Os produtos sempre estavam à disposição da equipe que preparava as refeições, mas as coisas simplesmente mudaram há pouco mais de cinco meses. Alimentos de menor qualidade passaram a ser entregue, e a situação era tão precária que, em certas ocasiões, até carnes estragadas foram entregues nas escolas.  “As reclamações eram feitas para a Global e para a SEMED. Eles sempre diziam que mandavam equipes de fiscalização nas escolas para averiguar a situação, mas nada era resolvido”, pondera.

A principal reclamação de Vanuza eram as carnes. Ela relata que muitas vinham com mofo, azedas, visivelmente impróprias para o consumo. Assim que percebeu o problema, passou a intensificar suas reivindicações por produtos com melhor qualidade, até que foi demitida da empresa. Engana-se quem pensa que a história acabou, pois ela começa a ganhar ares de dramaticidade para uma mulher que apenas recebeu a rescisão do seu contrato, mas ainda luta para receber direitos que ainda não foram pagos pela Alimentação Global Service LTDA. “Fui demitida em agosto e até hoje não recebi meu FGTS. Já estamos praticamente em outubro e nada foi feito. Já fui no escritório da Global, mas eles alegam que pelo fato de a sede da empresa ser no Espírito Santo, os processos são demorados. Fica nesse jogo de empurra-empurra. Eu só recebi minha rescisão porque fiquei insistindo, senão nem isso eles iam me pagar”, relata a ex-merendeira.

Os problemas nas unidades escolares vão além da alimentação. Vanuza conta que na Escola Municipal Cruzeiro do Sul, onde trabalhava, a cozinha está em situação precária. Os freezers onde armazenam a comida estão todos sujos e enferrujados, falta limpeza e iluminação na unidade. “Os funcionários de outros setores, como de limpeza e inspeção, também reclamam das condições de trabalho, mas somente entre eles. Se sentem acuados a ir em busca de seus direitos, pois a maioria conseguiu entrar nessas empresas através de indicações políticas”, ressalta.

Abuso de poder

O Jornal O Povo teve acesso a um compilado de áudios que mostram a gerente da empresa, Simone Cuersi, hostilizando os funcionários. Em um deles, Simone diz, em tom de voz exaltado, que “se a então merendeira acha que a empresa a trata com falta de respeito, ela está na empresa errada” e por fim a mandou procurar outro lugar para trabalhar.

Em mais uma conversa de voz, novamente irritada, a gerente diz que os funcionários estão de “palhaçada” por cobrarem os seus direitos.  “Eu mandava áudios perguntando a ela sobre as mercadorias, pagamentos e outros assuntos e ela na maioria das vezes me respondia com arrogância. Chegou até mesmo tentar me dar uma advertência por causa disso, mas não assinei porque estava no meu direito, 15 dias depois a empresa me demitiu”, diz Vanuza.

Falsas promessas

Ainda segundo Vanuza, assim que ela e outros funcionários da Alimentação Global Service LTDA foram contratados pela empresa, foram feitas promessas que jamais foram cumpridas. Uma delas foi o plano de saúde, que ficou apenas em sonho.

“Quando nós fomos contratados eles disseram que teríamos plano de saúde. Nós ficamos satisfeitos com isso, porém nunca aconteceu. Ficou só na conversa. Em uma das reuniões com os funcionários esse ano a gerente da empresa disse que não aceitaria nenhum tipo de falha e que queria excelência em nosso trabalho. Eu acho que quem não teve essa excelência foram eles”, completou Vanuza, que prestou depoimento ao Ministério Público na última quarta-feira sobre o caso.

A Secretaria Municipal de Educação de Mesquita e a Alimentação Global Service Ltda foram procuradas pela equipe de reportagem do Jornal O Povo, mas até o fechamento dessa reportagem ninguém se manifestou.

CPI das merendas superfaturadas

Em maio do ano passado a Câmara dos Vereadores de Mesquita abriu uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) analisar o superfaturamento de um então contrato emergencial feito pelo prefeito Jorge Miranda com a Alimentação Global Service LTDA, no valor de R$ 5.376,858,66.

Trecho do documento apresentado na CPI das merendas, onde é questionado a não renovação do contrato com a empresa anterior e o contrato emergencial com a Alimentação Global Service

 

No contrato anterior feito em 2014, no valor de R$ 9.290.000,00, a alimentação foi distribuída durante 12 meses com um gasto mensal de mais de R$ 770 mil reais. No contrato emergencial, o valor dos gastos era de mais de 1 milhão de reais.

Uniformes também são motivos de reclamações

 Esse mês foram entregues os uniformes para estudantes da rede municipal de ensino. O kit composto por uma bermuda, camiseta e tênis foi comprado pela prefeitura de Mesquita no valor de R$ 230 reais cada. As roupas não agradaram as mães dos alunos, que dizem que o material é de má qualidade. Blusas muito transparentes que incomodam mães de meninas, tecidos que não aguentam uma lavagem intensa e a demora para entregar as roupas e serem tão abaixo do esperado são as principais reclamações.

Outras acusações de superfaturamento

Em setembro prefeitura de Mesquita fechou a contratação da empresa ‘Trigonal’ para a implantação de sinalizadores de estrada, conhecidos como ‘olho de gato’, por R$ 2 milhões. De acordo com informações publicadas no Diário Oficial do Município, cada sinalizador deste contrato custa R$ 45, valor quase oito vezes maior que o valor real do equipamento, que custa R$ 6.

Já no mês de junho, Jorge Miranda foi acusado pela Câmara de Vereadores de contratar o serviço de aluguel de veículos a preço muito acima do estipulado. Ao todo, são três contratos que somados custam R$ 861 mil por ano. Vale lembrar que em agosto do ano passado, a Câmara pediu a cassação do mandato do atual prefeito em virtude de um empréstimo de R$ 14 milhões feito através do MesquitaPrev, alegando que o dinheiro seria pagar efetuar o pagamento dos salários atrasados dos servidores. A decisão foi tomada por ele sem o consentimento dos vereadores. Como consequência, Jorge foi afastado do cargo em duas ocasiões, porém recorreu através de uma liminar e retornou à frente de Mesquita.

 

 

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