Crise, falência de UPPs, banalização de fuzis, violência na folia: veja motivos que levaram à intervenção federal no RJ

Na quinta-feira (15), no Palácio do Planalto, diante do presidente Michel Temer, o ministro da Defesa, Raul Jungmann, e o chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), o general Sérgio Etchgoyen, apresentaram o plano ao governador Pezão. O general Walter Braga Netto foi anunciado como o escolhido para ser o interventor.
Publicamente, divulgou-se que o pedido partiu do governador. Jungmann e Etchgoyen já haviam levado reclamações ao presidente, de acordo com militares. Estavam irritados com os “vazamentos” das inúmeras operações feitas em conjunto desde julho passado com as forças de segurança do RJ, e que teve resultados considerados “pífios” e

custos milionários.

Na madrugada de sexta-feira (16), ao retornar ao RJ, Pezão comunicou a decisão a Roberto Sá, que se surpreendeu. Ao longo do dia, ainda segundo relatos de militares, enquanto Sá defendia a sua gestão, seus subsecretários pediam demissão e se despediam de suas equipes. Até a noite desta sexta, o comandante da PM, o coronel Wolney Dias, e o chefe da Polícia Civil, Carlos Leba, se mantinham no cargo.
Jungmann e Etchgoyen também não observaram nenhum movimento de que Roberto Sá trocaria os comandos das polícias Militar e Civil. Apesar do recorde de apreensões de armas pela PM, de acordo com militares, o delegado federal não era visto como a figura que conseguiria reverter o aumento da violência no estado e nem a ação cada vez mais audaciosa de traficantes.
“Ao invés de perguntas de por que as Forças Armadas estão lá, vocês devem inverter: por que as polícias não conseguem resultados?”, questionou o general Etchegoyen na coletiva de imprensa que anunciou a intervenção, em Brasília.
Em inúmeras reuniões com o governo federal, Roberto Sá pediu mais verba e equipamentos para auxiliar no combate à violência, aumentando o desgaste e a distância entre o governo federal e o estado. Agora, o general Walter Braga Netto terá à disposição um grande efetivo podendo mobilizar ainda militares do Batalhão de Forças Especiais, de Goiânia, grupo de elite do Exército.
“Essa intervenção atua, como não pode deixar de ser, nas causas, e não nas consequências desse caos. É, portanto, uma ação paliativa. Além da intervenção federal, é fundamental reformar as polícias, rever conceitos e metodologias. Segurança Pública ‘boa e barata’ não existe”, opina o inspetor Francisco Chao, ex-presidente do Sindicato dos Policiais Civis do RJ.

Neste sábado (17), o general Braga Netto estará no Rio para reuniões com autoridades da Justiça, do Ministério Público e da área de segurança, além do governador Pezão e do presidente Michel Temer. No decreto que define a intervenção, há detalhes sobre o uso de recursos, mas não se trata da punição a casos de corrupção de agentes públicos.
“Eu apoio a intervenção porque não se pode deixar o bandido dar as cartas. Agora, o decreto está capenga. Na ocupação do Complexo do Alemão, em 2010, nossa maior dificuldade foi punir policiais quando identificávamos algum problema. O decreto não dá amparo para uma punição disciplinar. E a gente sabe que há uma banda podre na polícia”, afirma o coronel do Exército Fernando Montenegro, um dos coordenadores da ocupação pelo Exército do Complexo do Alemão, há oito anos.
A Federação de Favelas convocou uma reunião para este sábado. As lideranças comunitárias dizem que vão debater essa intervenção e criar um “gabinete de defesa”.
A Ordem de Advogados do Brasil, seccional Rio, explicou, em nota, que acompanhará as ações das Forças Armadas e convocou uma reunião para março assim que proposta seja votada pelo Congresso Nacional. A ordem quer mobilizar entidades e ONGs.
O procurador-geral de Justiça Militar, Jaime de Cassio Miranda, enviou ofício ao Ministério da Defesa e às forças militares informando que está à disposição para prestar apoio e acompanhar os trabalhos das Forças Armadas.
Não faltam motivos para o caos da segurança pública que levou à intervenção federal no Rio. Entenda abaixo como o estado chegou a essa situação:

A retomada da violência

A criminalidade cresce de forma constante desde 2016 no estado do RJ. O ano da Olimpíada do Rio marca também a derrocada da política de segurança pública baseada na retomada do controle territorial pelas Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Em outubro, o responsável pela implantação desse projeto, José Mariano Beltrame, pede exoneração do cargo de secretário de Segurança depois de afirmar várias vezes que os esforços não eram suficientes para combater o crime no estado.
Os sinais, no entanto, já estavam presentes. O número de mortes violentas e roubos de rua no estado do RJ já tinha aumentando dois anos seguidos após 2012, e o roubo de carga se tornava uma das modalidades preferidas dos traficantes para conseguir recursos.
Em 2017, o número de mortes violentas no estado chega a 6.731, um aumento de 44% em apenas cinco anos, desfazendo a redução temporária provocadas pelo aumento do efetivo policial e as UPPs.

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